Domingo, 22 de Outubro de 2017

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Brasil

Publicada em 12/10/17 as 09:12h - 43 visualizações
Atualizado em 12.10.17 as 08h10 Fred Luz passado a limpo: o que dizem e o que ele diz sobre atuação de CEO do Fla
Acusado por ex-aliados de dizer que nada conhecia do esporte, diretor-geral se defende, diz que clube tem gente mais habilitada para falar do assunto e explica:

Urubu News 2


www.urubunews.com.br  (Foto: Urubu News 2 )
Eu não entendo nada de futebol". Era essa a frase que o CEO do Flamengo, Fred Luz, repetia em 2013 sempre que o assunto era discutido na gestão Eduardo Bandeira de Mello. Compreensível. Afinal, o engenheiro foi contratado para a área de marketing do clube por sua habilidade com vendas.


 
O próprio confessa não ser especialista, aponta pessoas mais capacitadas para tratarem do assunto dentro do Rubro-Negro. Porém diz, repetidas vezes, que com vivência baseada no MBWA (Management By Walking Around - em tradução livre "saindo do escritório para interagir e ver as necessidades de seus colaboradores", método de gestão de pessoas que prega que o gestor circule para ter uma percepção real do que acontece na empresa) e aprendizado com erros, familiarizou-se com o assunto.

Nos últimos quatro anos muita coisa mudou, e Frederico Luz, como era tratado pelo site oficial do Flamengo enquanto atuava como diretor de marketing, em 2013, cresceu. Expansivo, tornou-se diretor-geral do clube um ano depois. Virou figura crucial no fechamento de vários patrocínios e, diante do espaço que foi ganhando, tornou-se o "01 do futebol".

Hoje, no organograma do clube, está acima do diretor Rodrigo Caetano - contratado por ser especialista no assunto. Fred participa de praticamente todas as viagens da equipe, aparece em preleções e atua ativamente em negociações de atletas.

Com ganhos mensais de alto executivos do mercado e direito a até seis salários de bônus em caso de metas esportivas e financeiras atingidas, o dirigente causa discordância em alguns setores do clube por conta de seu crescimento no comando de um esporte que dizia a seus pares não dominar. Até chegar ao Flamengo, ele nunca trabalhara no meio. Grupos políticos e ex-aliados o acusam de ter virado "CEO do Futebol".
Trajetória e perfil

Formado em engenharia, Fred Luz, de 64 anos, foi levado ao Flamengo por Luiz Eduardo Baptista, o Bap, vice-presidente de marketing até fevereiro de 2015. Bap, um dos nomes mais fortes da Chapa Azul, deixou o cargo em 2015 e foi para a oposição

Bap e Luz se conheceram nas Lojas Americanas, onde Fred foi diretor comercial.

Fred é sócio da holding Inbrands, que reúne marcas como Richards, Salinas, Ellus e VR, e chamou atenção do grupo que venceu as eleições rubro-negras de 2013 pela habilidade com negócios. Ele não tem formação em marketing, mas o destaque no varejo estimulou Bap a apostar no amigo.

De acordo com pessoas que lideraram a Chapa Azul em 2012 e que preferiram não se identificar, Fred foi contratado por sua frieza.

- Trouxemos Fred porque sabíamos que ele não se deixaria envolver por emoção. É bom para quem vai negociar. Precisávamos de um cara que é Flamengo, mas que não tivesse o nível de emoção que eu e outros do nosso grupo temos. Fred nunca gostou de futebol. Era o cara que na segunda-feira não sabia do resultado da véspera. É Flamengo por coincidência. Mas nunca perdeu o sono - disse uma fonte que não quis ser identificada.

"É um excepcional comercial"

A mesma fonte, uma das entusiastas da contratação do atual CEO do Flamengo em 2013, classifica Fred como um grande negociador.

- O Fred é um excepcional comercial e bom gestor. Como precisávamos renegociar muita coisa no Flamengo, a nossa estratégia era: "Nós vamos resgatar credibilidade e abrir portas com o nome da gente. Quando os caras estiverem abertos a conversar com o Flamengo, mandamos o Fred e vamos conversar com o próximo parceiro".

"É como você dar a camisa 10 ao Márcio Araújo"

Líder da Chapa Azul em 2012 e dissidente na eleição seguinte, o autor das palavras relatadas acima, desapontado com Fred, garante que jamais imaginaria ver o profissional tão forte no futebol. E vai além: crê que o conformismo apresentado com as derrotas é reflexo da personalidade de Luz.

- É como você dar a camisa 10 para o Márcio Araújo e ficar irritado porque ele não sabe finalizar e porque não cobra falta. Quem está errado: o Márcio Araújo, que está com 10, ou quem o colocou com a 10? O futebol do Flamengo perdeu essa coisa da garra, da paixão e dedicação, que é exatamente o que o Fred é: um cara frio, calculista e que não se emociona à toa.

Contratação de consultorias e Fernando Gonçalves

Fred é o responsável pela contratação de consultorias tais como a da Exos, empresa americana de excelência em prevenção de lesões, e da holandesa Double Pass, voltada para a base do clube.

Outra consultoria levada ao Flamengo por Fred é ministrada por Cristiano Koehler, ex-CEO do Vasco. Inicialmente contratado para ser um consultor financeiro e com atuação voltada ao programa de sócio-torcedor Nação Rubro-Negra, ele presta consultoria sobre sistemas de gestão. Ex-funcionários dizem que esta teria foco no futebol, mas Luz nega.

A Exos é peça fundamental do Centro de Excelência em Performance (CEP). Para este setor, Fred fez uma de suas contratações mais polêmicas: Fernando Gonçalves.
Tricolor de coração, Fernando quase voltou ao Fluminense em 2017 a convite de Pedro Abad, atual presidente do Flu. Contratado para prestar o serviço de coaching ao Flamengo, tornou-se responsável pelo setor de psicologia do clube, com muita influência no futebol. É homem de confiança de Fred Luz e tem experiência no mundo da bola. A presença de Fernando incomoda a funcionários do Flamengo.
O CEO participa de todas as decisões do futebol e é visto como um desatador de nós em negócios complexos. Relatos o classificam como "coerente, tranquilo, muito pé no chão e bom de papo".

Declarações polêmicas

Em entrevista ao "O Globo" em 7 de julho de 2017, Fred Luz causou revolta nas redes sociais com a seguinte resposta ao ser perguntado sobre a possibilidade de se praticar preços populares na Ilha do Urubu: "Populares são as gratuidades. Isso no Estado não tem cunho social, não importa a renda. Poderia ser, mas não é".

Em 2016, o Fred Luz foi muito criticado por sócios por ter permitido que o jogo com o Palmeiras, no início do Brasileiro, tivesse venda de ingressos de diversos setores mistos. Resultado: a torcida visitante compareceu em peso, dividiu o Mané Garrincha, e o Flamengo perdeu por 2 a 1.
Para completar o combo, houve briga entre os torcedores e o clube foi punido no STJD. Na ocasião, Fred se disse surpreso.

Ao saber de que o GloboEsporte.com publicaria um perfil ao seu respeito, Fred Luz aceitou receber a reportagem em sua sala no clube, onde deu longas explicações. A entrevista durou quase três horas.

Ele negou que não ligasse para o futebol do Flamengo, disse ainda estar atento às demais áreas do clube e admitiu erros no planejamento do carro-chefe rubro-negro. Apesar da mea-culpa, vê o Fla de 2017 à frente do de 2016.

Leia tudo abaixo.

Você realmente não tinha interesse por futebol? Realmente dizia que não entendia de futebol?
A maioria das vezes que eu falava isso era com a imprensa, e eu não sou a pessoa que fala sobre futebol com a imprensa. Quem fala sobre futebol são Rodrigo, o presidente, o vice-presidente do futebol e o técnico.

Não falo sobre futebol porque acho que já há pessoas suficientemente preparadas para falar disso. Sempre fui ao Maracanã desde garoto. Assistia Flamengo x Olaria, Flamengo x Madureira... Minha primeira decisão infelizmente foi a de 62, em que o Flamengo perdeu para o Botafogo por 3 a 0.

Não tem esse negócio. Gosto de futebol, sempre frequentei. Frequentava com meus pais, frequentava sozinho e depois passei a frequentar com meus filhos.

- Não fui aquele torcedor depois de uma certa idade, até por força do meu trabalho, de ir a todos os jogos no Maracanã.

Sempre fui muito apaixonado pelo Flamengo. Só não ouso falar que eu conheço mais do que os profissionais que têm experiência continuada no futebol. Nossa sociedade é um pouco arrogante, e no futebol também, em termos de se colocar numa posição de quem saiba alguma coisa sem ter se dedicado em profundidade.

- Então, na minha opinião quem entende de futebol é o Rodrigo Caetano, que é diretor de futebol e foi jogador de futebol desde os 10 anos de idade.

E todas as pessoas que têm experiência continuada que levam aos dramas. O grande aprendizado vem dos dramas. Ou seja, os técnicos de futebol, o pessoal da comissão técnica. Esse é o pessoal que basicamente influencia e tem a maioria das decisões dentro do futebol do Flamengo.



Mas pessoas que trabalharam ao seu lado no Flamengo dizem que você não ligava para os resultados. Inclusive sustentam que o contrataram por conta da sua frieza. Essa falta de paixão pelo Flamengo nunca houve da sua parte?

Cada um tem suas características pessoais. Têm pessoas mais inflamadas, que gritam, chutam cadeira e soltam impropérios. Eu não tenho esse perfil. O meu perfil é de uma pessoa que tem algum equilíbrio emocional. Talvez eu seja um dos que mais tenham. O que é completamente diferente de não ligar para resultado.

Já tive vários dias tristes no Flamengo, um dos mais tristes foi aquela derrota por 4 a 2 para o Atlético-PR, no Maracanã, pelo Brasileiro, em que Mano Menezes foi embora.

Naquela época, eu era um cara do marketing. Eu me senti mal. Com a saída do Mano e várias circunstâncias que não cabem agora citar, eu coloquei em xeque até a qualidade da nossa própria gestão e o que conseguiríamos pela frente.

Graças a Deus veio uma baita reação. Foi basicamente um movimento dos jogadores. Os jogadores reagiram e, com a entrada do Jayme, nós ganhamos a Copa do Brasil.

- A derrota da Libertadores foi acachapante, muito sofrida. O Flamengo deu muita chance ao azar, e o azar caiu como uma bomba na nossa cabeça.

Vários jogos bons do Flamengo foram na Libertadores. Todos do Maracanã foram bons, e nós fizemos jogos bons lá no Chile e fomos bem contra o Atlético-PR. Contra o San Lorenzo, demos muitas chances ao azar, e ele veio.

Nós estamos trabalhando para construir um Flamengo sólido para caramba, e eu te garanto uma coisa:

Na hora que a gente acertar, o Flamengo vai ganhar tudo e sempre. Vai ganhar pra caramba. Estamos construindo um Flamengo forte, mas não chegamos lá ainda.

O que fez você tornar-se tão atuante no futebol agora?

Não tem esse agora, sempre foi assim.

Na medida em que o futebol comece a apresentar resultados, eu vou estar mais distante. Você tem que dar mais atenção enquanto você tem um desvio.

Não tenho dúvida de que o Flamengo vai engrenar. Assim como eu sei que eu vou morrer (risos), só não sei quando nem como, eu tenho certeza de que o Flamengo vai engrenar. Só não sei quando.

A partir de 2014, eu passei a frequentar muito o futebol, que é a principal atividade do Flamengo. Até diria que 90 e poucos por cento da receita do Flamengo vêm do futebol. O Flamengo busca o ciclo positivo: desempenho esportivo apoiando o crescimento das receitas. O crescimento do valor, o interesse para o Flamengo, que aumenta a audiência e o valor dos patrocínios.

Mas eu não sou a pessoa que decide o dia a dia do futebol. O meu papel é organizar o futebol, assim como é meu papel organizar todas as áreas do Flamengo.

Você foi eleito o melhor CEO do futebol brasileiro no prêmio BrSM, em 2015. Qual o papel do cargo de diretor-geral (na linguagem popular) na rotina do Flamengo?

A minha responsabilidade é na execução. A decisão está nos vice-presidentes e no presidente do clube. Eles decidem pelo clube. Eu sou o líder do grupo executivo. Fala-se muito em MBA, eu gosto do MBWA (Management By Walking Around). É impossível você ter conhecimento de causa sem vivenciar. Aprendi isso nas organizações em que trabalhei, e elas são muito bem-sucedidas.

Não sou tão presente assim no futebol. Numa semana, vou duas vezes ao CT, isso representa 20% da minha agenda. Mas o futebol é muito envolvente. Agora eu estou envolvido com estádio, com esporte olímpico, com as obras da Gávea.

A administração geral, que é o meu papel, é como o chinesinho dos pratinhos. O pratinho que está prestes a cair, você tem que pegar a varinha e rodar. Qual pratinho do Flamengo está caindo hoje? O futebol hoje demanda mais atenção, mas o meu papel no futebol é muito mais da estruturação. O Flamengo está fazendo movimentos no futebol ligados a infraestrutura no futebol que ninguém vai ver e que não têm que ser ponto de atenção da torcida.

Se você for olhar a melhoria que tivemos na base, é enorme. O último vendido com valor relevante foi Renato Augusto, e você vê o que está acontecendo. Por quê? Porque mudamos as metas da base. 

Passamos a estar muito mais preocupados que o Flamengo tenha jogadores nas seleções de base. Isso mudou o sarrafo e é cobrado.

Passamos a ter uma série de rotinas que avaliam a qualidade das decisões técnicas, eu nem participo 
dessas reuniões. Mas tem um método de cobrança. Todo mundo tem metas, tem que explicar os desvios e o que vai fazer para melhorar. Temos cultura de estar muito mais preocupados em não procurar culpados, mas sim em melhorar.

Você falou em cobrança. Há uma impressão de conformismo no discurso de dirigentes e jogadores. O presidente, por exemplo, tratou a derrota para o San Lorenzo como "normal" em desembarque no Rio. 

Não existe talvez aceitação de derrotas por parte desse Flamengo? A cobrança não é feita de maneira efetiva?

Discordo completamente disso aí, acho que tem muita cobrança, os próprios jogadores se cobram muito. 

Agora, aquele negócio: perdeu. Você pode fazer o seguinte: "Vou chutar tudo quanto é parede, vou jogar cadeira no lixo, vou gritar para a rua".

Vai resolver alguma coisa? Vai resolver p... nenhuma. O que eu tenho de falar? "Cara, onde a gente errou? Qual foi o nosso conformismo?". Jogamos bem, mas perdemos todos os jogos fora. Isso é um p... de um problema. Temos que corrigir isso e identificar o que está acontecendo com a gente.

Você só sabe depois que faz. Não é conformismo, mas o Flamengo não está na merda. Há dois anos, três anos, a conversa não era de rebaixamento, mas era quase. Era um limbo do cacete.

Agora vamos pegar o ano passado. Dizem que o ano passado foi melhor. Foi mesmo? Nesse ano, fomos campeões cariocas invictos. No ano passado saímos na semifinal. Tivemos o revés na Libertadores (neste ano), nossa meta era ir muito mais longe e talvez ganhar. É a meta do ano que vem de novo. 

Nossa meta do ano passado era classificar para a Libertadores. Saímos da Sul-Americana logo, logo. Na Copa do Brasil, quase caímos para o Confiança e perdemos para o Fortaleza. Nesse ano, fomos à final.

Então, disputamos todos os torneios depois da Libertadores. Todos! Não saímos da Sul-Americana. 

Temos chance ainda de acabar entre os três do Brasileiro.

O Flamengo não está morto, não tá em situação de terra arrasada. Já conquistou mais do que no ano passado. Eu queria muito mais, os jogadores também, mas não tem conformismo.

Não pode ter atitude de derrubar tudo, derrubar o CT... não leva a nada. O que leva é o aprendizado em cima dessa situação.

Temos que lutar com raça, amor e paixão, que é o lema do Flamengo. Não é para fora, é para dentro. 

Esporro é individual e em particular. Não é público.

É bonito, o cara fica bem com todo mundo e diz que faz e acontece, o valentão e o cacete a quatro, mas não é produtivo. Para dentro, não funciona.

É fato que você participa de negociação de jogadores agora...
Participo.

Mas até 2014 você não participava? Na negociação do Vinicius Júnior, por exemplo, você foi a figura principal do Flamengo. Só você falava com o Real Madrid, negociou com o CEO deles (José Angel Sánchez)...

Não gosto desse negócio de figura principal. Sempre vivi no mundo dos negócios. Qualquer negócio grande, até por questão de segurança, deve estar dividido e conhecido por várias pessoas. Contrato da TV Globo, por exemplo, quem negociou? Eu. Mas fui sozinho? Claro que não. Divido com vários vice-presidentes, você olha para fora, conversa com outros clubes. Vai, volta, vai, volta, e você fecha.

A mesma coisa acontece com transação de jogador. Claro que, com valores mais baixos, você olha menos. As famosas alçadas que acontecem em qualquer organização.

O negócio do Vinicius Júnior era preocupante. Ele tinha cláusula de R$ 30 milhões para o mercado interno e 30 milhões de euros para fora. A gente corria o risco de alguém vir e comprar no mercado interno e revender.

Começamos a estruturar uma renovação do contrato dele. Não fui eu. A liderança era do Rodrigo Caetano. Mas tinha muita gente querendo saber. O negócio foi muito bem conduzido pelo Rodrigo, e na hora de viajar, eu sempre participei dessa parte de negociar na minha vida toda. Eu trabalhei num negócio de comprar e vender. Junto aos meus sócios, tomava conta de todas as transações da companhia.

Então eu que fui para a Espanha, eu que conversei, e fechou. Mas foi o Fred que fez? Eu participei.

Quando você fala de execução no Flamengo, tudo é o Fred. Tudo que é relevante. O terreno agora que a gente tem a opção do estádio? O Fred estava envolvido. A primeira pessoa que foi lá fui eu. Mas por acaso. Poderia ter sido o Wrobel. A execução é comigo.

Mas a palavra final nas grandes transações do Flamengo fica com presidente e vice-presidentes. Eles que decidem. Nós executamos. Não tem mais um trabalho isolado no Flamengo.

Mas de toda forma o caso do Vinicius mostra o crescimento da sua atuação no futebol...

Em 2014, entrou o Ney Franco. Não tinha ninguém. Ele queria contratar os jogadores, quem ligou para os empresários? Eu. Tive que acumular. No ano passado, o Vido esteve viajando num momento em que montávamos o elenco do ano passado de basquete. Eu fechei alguns jogadores.

Você participa da montagem do elenco? Dá pitaco? 

Nada. São as pessoas do futebol que fazem essa avaliação.

O que eu procuro fazer, sim, é garantir que todos os cuidados de investigação foram tomados: o histórico do jogador, o comportamento dele, mas quem faz isso não sou eu. A questão física do jogador, como é e como não é. Têm protocolos e sistematizações que precisam ser acompanhados.

Hoje o Flamengo sistematiza tudo. As decisões de contratações na área do futebol estão todas registradas. Por que a gente contratou, que skills (habilidades) a gente esperava daquele jogador... Seis meses depois, um ano depois, eu volto naquilo ali. Precisa entender de futebol para fazer isso? É preciso entender de gestão.

Mas isso só é feito com paixão, raça e tesão pra c...



Você tem essa raça, esse tesão e essa paixão citados por você?

Tenho total. Posso gritar, espernear e o caramba, até porque eu grito mesmo, mas você está com a decisão. Você tem que me enfrentar. Eu quero gente aqui tão boa ou melhor do que eu. É o que o Flamengo precisa. O cara aqui nunca vai ser punido por ter me confrontado. Agora os nossos resultados teriam que ser melhores.

São justas as críticas de que, ao se envolver muito com o futebol, você deixou as demais áreas do clube e outros projetos de lado?

Não concordo de jeito nenhum. Não concordo mesmo. Tem um negócio chamado "cheque em branco". 

Por exemplo: "Eu não tenho tempo para discutir um assunto com você, eu te dou um cheque em branco". Isso acontece. O Flamengo é amplo o suficiente para eu não olhar tudo.

Um contrato de renovação com a TV Globo? Eu vou estar lá. Uma conversa com o governador ou com a 
Casa Civil sobre Maracanã? Eu vou estar lá. Agora, mal comparando, a obra para botar azulejo no banheiro da Gávea? Eu não vou estar lá. Tenho gente para isso, mas eu ando pela Gávea. Também não estou todo dia no CT. Se encontro um banheiro sujo, eu chamo o cara. Todo mundo aqui tem meta. Se as suas estão sendo atingidas, eu não vou encher muito seu saco.

Temos mapa de gestão e metas em todas as áreas. Temos metas de conseguir estádio, conseguimos estádio alternativo. Eu não estava no estádio? Em qual assunto relevante eu não estava?
Fred Luz amplia a resposta e cita a consultoria prestada por Cristiano Koehler
Eu trouxe o Cristiano Koelher porque no início da carreira dele ele teve uma experiência no Grêmio de estruturar um sistema. Trouxemos esse sistema, e o Cristiano me facilita o acompanhamento. Sabe quem faz isso igual? O Real Madrid.

Temos metas, e elas são aprovadas pelo Conselho Diretor. Todas as áreas têm projetos estruturantes. Temos de saber em que momento eles precisam ser vencidos. Tudo isso é desdobrado em várias pessoas.

Acende luz verde e luz vermelha, isso demanda trabalho e acompanhamento. Cristiano é o facilitador dessas reuniões. Ele é o ponto de ligação entre os diretores e os gerentes. Isso é um sistema de gestão.

Os bônus aos quais você tem direito são ligados à arrecadação. Não deveriam estar ligados também ao rendimento esportivo? Continua assim?

Não só eu tenho bônus. Todos os diretores e gerentes contratados em 2013 tiveram bônus estabelecidos que hoje está pacificado em seis salários. Flamengo tem metas financeiras e esportivas. A meta esportiva era classificar para Libertadores. Eu tinha essa meta.

Flamengo tem meta de resultado, não de arrecadação. É receita menos despesa. Tem meta de lucro, tem meta de geração de caixa... São as metas globais do Flamengo. Tem uma avaliação que o Conselho Diretor faz da qualidade da gestão que faço.

A meta de 16 foi aprovada no final de 15. A decisão não é minha. Eu não decido o meu bônus. Quem decide é o meu chefe. Não só eu tenho isso. No futebol tem também. Rodrigo tem meta, o Márcio (diretor de comunicação) tem meta, o Paulo Dutra (diretor financeiro) tem meta.

E você está muito longe de atingir suas metas em 2017? Imagino que o Flamengo tenha projetado algum título grande. Você poderia falar quais são suas metas?

Na Libertadores, fomos mal, ficamos aquém. No Brasileiro, podemos ficar entre os três. E a Sul-Americana a gente pode ganhar. O ano não acabou para o Flamengo, e o ano pode não ser tão ruim para o Flamengo. Ganhamos o Carioca invictos e chegamos à final da Copa do Brasil, que é muito importante. 

Tivemos um trauma de não ganhar a Copa do Brasil. Me senti mal pra caceta.

Sei que é forte falar em fracasso na Copa do Brasil, mas esperava-se um grande título no ano.

Na história do Flamengo, foi a sete finais de Copa do Brasil e ganhou três. Nessa gestão, perdeu e foi fracasso?

É pouco dentro do que se espera desse Flamengo e pelo investimento feito. Em 2014, por exemplo, foi à semifinal, ganhou de 2 a 0 do Atlético-MG no Rio, abriu 1 a 0 no Mineirão e deixou virar para 4 a 1. 
É futebol...




O ano não acabou, mas em outubro o Flamengo só tem chance de um título. Só a Sul-Americana é palpável. É possível dizer em outubro que o ano é decepcionante?

Se o Flamengo ficar entre os quatro primeiros no Brasileiro e ganhar a Sul-Americana, acho que terá sido um bom ano para o Flamengo.

Mesmo com o vexame na Libertadores? 

O Flamengo não ganhou nenhum jogo fora na Libertadores, foi muito ruim. Ponto. Mas é futebol. Se a gente ganhar a Sul-Americana e terminar entre os quatro no Brasileiro, tendo ido à final da Copa do Brasil e sido campeão carioca, eu diria que esse ano de 2017 foi muito melhor do que em 2016.

Sem dúvida, até porque não ganhou nada em 2016...

Então não se pode nem chegar perto de se falar em fracasso.

Decepção, certo?

Decepção é sempre em relação a uma expectativa. Se a minha a expectativa é ser campeão de tudo, e isso pode ser irrealista, qualquer coisa que eu não ganhe é decepção. Sem nenhum conformismo, eu acho que o Flamengo, até pelo investimento que está sendo feito no futebol, tem de estar muito mais preparado para ganhar com mais facilidade dos seus adversários.

Nesse aspecto, acho que o Flamengo ainda precisa evoluir sim, porque joga com adversários que tem nível de investimento inferior ao do Flamengo, e o Flamengo não deslancha.

Segundo: acho que quando o Flamengo joga desfalcado, apesar de eu achar que tem um ótimo elenco, esse time desfalcado não tem desempenhado bem. É outro ponto de atenção.

O elenco é desequilibrado então, concorda?

Não diria que é desequilibrado, acho a qualidade dos nossos jogadores muito boa. Falta alguma coisa no nosso processo para que isso não aconteça da forma que tem acontecido.

Como avalia o planejamento do futebol para 2017, principalmente diante do problema de registro de jogadores na Copa do Brasil só até 24 de abril? Você acha satisfatório, crê que esses nomes de peso que vieram depois deveriam chegar no início do ano?

Acho que no momento em que foi feito o planejamento, ele foi bem feito. Depois, se mostrou que poderíamos ter feito coisas diferentes.

O Flamengo tinha limitações financeiras também que não permitiam naquele momento... Se a gente não tivesse vendido o Vinicius Júnior, talvez não tivéssemos contratado o Éverton Ribeiro. As outras contratações foram oportunidades em que o Fla não teve de fazer investimento adicional, embora onerasse nossa folha de pagamento.

A gente faz um planejamento considerando que vai dar certo no ano, mas, como a vida não é tão perfeita assim, principalmente no futebol, a gente sempre deixa uma folga olhando o desempenho do semestre para termos sempre a oportunidade de ter um upgrade maior no meio do ano. Esse upgrade pôde ser maior por causa do evento do Vinicius Júnior.

Flamengo, sempre que pode, está qualificando melhor o seu elenco. O elenco do Flamengo hoje é melhor do que o ano passado. O desempenho no Brasileiro não é melhor, mas overall (no geral) é.
Insistindo: diante de tudo que aconteceu na Libertadores, pegando um Atlético-PR em frangalhos, um time da Católica muito fraco, não é possível considerar fracasso na Libertadores? Time forte era o San Lorenzo, que ainda enfrentou greve no futebol argentino no início do ano.

A Libertadores foi uma grande decepção, já falei isso aqui. Libertadores foi um p... de um trauma, acho que até refletiu na continuidade. Ser desclassificado na primeira fase da Libertadores é um fracasso, mas é muito diferente de considerar o ano um fracasso. O ano de 2016 foi um fracasso? Flamengo foi terceiro colocado no Brasileiro. Foi fracasso?

O Flamengo vinha de sucessivos fracassos contra o Vasco, seu maior rival, deu um baita vexame na Copa do Brasil contra um time de Terceira Divisão (Fortaleza) e também na Sul-Americana, diante de um clube sem tradição alguma (Palestino).

Nesse ano, apesar ter caído na Libertadores, os resultados são melhores. No ano passado, O Flamengo saiu na semifinal do Carioca. Nesse ano, foi campeão invicto. Jogou muito bem os dois jogos da final, contra o Fluminense.

Qual sua relação com Fernando Gonçalves e por que um coaching é importante no organograma do Flamengo?

Relação profissional, conheci o Fernando aqui no Flamengo. Ele trabalhava na Traffic, era diretor lá. Ele participou de algumas conversas comigo quando eu ainda era do marketing. Chegaram a fazer proposta para fazer determinados trabalhos de vendas para o marketing. Quando eu estava começando no futebol, em 2014, no período de transição, tivemos uma negociação do Caio Rangel. A Traffic tinha alguns jogadores no Flamengo. O Fernando tratou dessas questões, e eu participei dessas questões com ele, e 
eu comecei a discutir filosofia de futebol com ele.

Gostei da visão que ele tinha de futebol, mas ele falou que queria sair desse negócio de futebol. Ele disse que nunca teve ambição de função executiva no futebol. Disse que tava mudando a vida dele para esse negócio de psicologia positiva no futebol.

Como as ideias dele de organização do futebol coincidiam com muitas ideias do Felipe Ximenes, que depois foi contratado para ser diretor do Flamengo, conversei com o Ximenes. "Bom, Ximenes, como você está muito envolvido na direção executiva de futebol, de repente para gente implantar a mudança que queremos no futebol, como o Fernando é muito afinado com você, talvez a gente possa contratar o Fernando para vir como um consultor pra gente para te apoiar...".

Eu não poderia contratar sem ele concordar. Aí concordamos em fazer acordo com Fernando, ele saiu da Traffic e veio para fazer consultoria e nos ajudar a montar a estrutura do futebol.

No Centro de Excelência em Performance (CEP), por exemplo?
Na época, os conceitos. Foram criados o MAIA, que é o mapa de acompanhamento individual do atleta. 

Criamos a inteligência em mercado. As áreas em si são menos importantes que o conceito em geral. 

Fomos montando o conceito do departamento de futebol com Ximenes e o Fernando. O Fernando teve 
como consultor um papel muito importante no que é o Flamengo em sua operação.

O Rodrigo também se alinhou nesse movimento, e o Fernando foi saindo dessas questões ligadas ao futebol. Ele fazia parte do comitê de futebol, mas nunca teve poder de decisão em contratações. Ele podia ter opinião, mas não tem opinião determinante, e eu também não tenho. Ele foi se dedicando cada vez mais à psicologia. Começamos a trabalhar mais isso na base e depois foi levado ao futebol profissional.

O fato de Fernando ser tricolor e por quase ter ido para a gestão do Pedro Abad não incomoda? Essa resistência a ele não mexe com você, não o inclina a mudar?

Há muitos outros funcionários no Flamengo que não são Flamengo. Muitos bem importantes que não são Flamengo. Avalio num funcionário se ele trabalha bem ou mal. No caso do Fernando, não sou eu. São os chefes dele: Rodrigo e Tannure. São pessoas que têm opinião sobre ele.

Para ser político, claro que não pode torcer para outro time. O cara não pode ser vice-presidente do Flamengo e torcer para o Botafogo. Funcionário não tem problema

Há críticas ao Mozer. Dizem que ele não faz nada no Flamengo. Qual o papel dele?

Mozer é o coordenador técnico. Quem lidera as reuniões técnicas no Flamengo é o Mozer. Negócio dele é futebol. Ele fala diretamente com jogadores, apoia treinador nas questões do que se precisa mudar no comportamento dos jogadores em campo. Fala muito com os atletas sempre alinhado com o treinador.

Você se comprometeu a deixar o Fla caso o Bap saísse? Também dizem que você falou em sair caso o grupo que se transformou na Chapa Verde perdesse as eleições de 2015. Procede?

Não. Vou falar bem o que aconteceu. Vim para o Flamengo por causa do Bap. Senão nem viria aqui. A pessoa em quem eu tinha confiança de que eu estaria me envolvendo com ambiente sério era o Bap. Não conhecia mais ninguém no Flamengo, só o Bap. E o Bap já tinha me chamado antes: "Pô, Fred, entra para sócio, se aproxima mais do Flamengo". Mas eu não achava esse ambiente do futebol uma coisa para eu me envolver. 

Quando eu vi que eles estavam fazendo uma chapa puro-sangue, liguei para o Bap e me dispus a ajudar. 

Vi que alguma coisa estava fazendo sentido. Assim que a chapa ganhou, Bap me pediu para trabalhar aqui, ainda tive dúvidas.

Quando deu a confusão, eu falei com ele: "Bap, eu estou aqui por sua causa". Isso no início de 2015. Me lembro que conversei com ele ali no Talho Capixaba (restaurante no Leblon), era o dia do desfile das campeãs. Ele disse: "Não, Fred, você fica porque é melhor para o Flamengo você ficar".

Continuei a vir no Eduardo e nas pessoas que ficaram para ver que aquela filosofia iria continuar, ou seja: que o Flamengo ia continuar responsável, sério.

Acho que executivo não tem que ter participação política. Para nós, qualquer que seja a chapa eleita, temos que ver qual é a filosofia do Flamengo. Nunca teve nenhuma conversa de "vou sair" ou "não vou sair". Muito menos com viés eleitoral. No momento que sentei na cadeira de executivo, eu fechei a porta para a questão política. Se eu tivesse saído, eu sairia quieto. Não num movimento político.
168 visitas - Fonte: Globo Esporte



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